terça-feira, 12 de julho de 2011

Asas

A maldição do saber que é possível voar
E do ostentar estas asas em vão
É ainda maior que a dor de ficar
No triste rastejo no lixo do chão

Mais vale apagar a dor de saber
Cortando estas asas, mero ornamento
Ninguém quer o peso na alma de as ter
Sem poder abri-las e dá-las ao vento

Voar é para todos, mas só voam poucos
Imunes por sangue às corrente de ferro
São muitos os que nas cordas estão roucos
Por em seu direito soltarem o berro
De querer por fim emendar este erro
E tornar sã esta terra de loucos

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ontem

Ontem acordei mais do que uma vez
E vi na janela o meu meio reflexo
Pensei como é que eu sou, talvez
Não sei se tão simples ou tão complexo

Acordei de um sonho cheio de arte
Tentei decifrar a turva mensagem
No cinza acordar fui notar o aparte
Que pinto sozinho a minha paisagem

E tudo era igual, ao dia anterior
Mais uma volta no ciclo da gente
Que roda e roda sem nenhum fulgor
Se deixa levar por qualquer regente

Os mesmos feitiços na caixa mágica
O mesmo olhar em suspiros meus
A mesma mensagem, sempre trágica
As mesmas bombas em nome de deus

A mesmas intermináveis filas
E conversas inúteis, sobre nada
As mesmas modas e suas pupilas
Os mesmos trapos à face da estrada

Os mesmos que vivem com muito de tudo
E outros que caem nos seus artifícios
Mas já em mim este facto é mudo
Só penso em matar os meus próprios vícios

Foi ontem o quase diferente
Mas quase é nada quando o falta
Mudar quase tudo é tão urgente
Quanto é urgente morrer a ribalta

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sem Alma

Quando saio à rua, e olho a paisagem
E vejo no que tornou o tempo, a gente
Rara é a libertadora aragem
Maciça é a vazia moda ardente

Todos olham para ela agora
Todos a querem à sua volta
São almas cegas felizes à nora
Temporariamente à solta

Pois o tempo queima o que arde
E o que arde muito não dura
Ainda o sol queima ao final da tarde
E já este rito passou de altura

Inteiros se entregam a esta ideia
Que veio de onde já ninguém pensa
Não interessa quem teceu a teia
Vestem-na e aceitam a ilusão imensa

Ao olhar para fora não sabem quem são
Nem da sua mão conhecem a palma
São cópias de gente feita de cartão
São parte integrante do triste padrão
Se o inferno estivesse in, venderiam a alma

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Velho Amigo

Meu querido velho amigo
Aceita a minha sentida mensagem
Trago peripécias que guardei comigo
Ao longo desta débil viagem

Desde a última vez que nos vimos
Parece que vários séculos voaram
E como estradas diferentes seguimos
Ares diferentes certamente passaram

Eu, tantas coisas deixei escapar
Tantas vezes me deixei seduzir
Alguns dias acabei a chorar
Alguns dias que acabei a sorrir

Tentei sempre me guiar pelos sonhos
Tentei sempre ordenar importâncias
Contudo quase sempre suponho
Ter sido vítima das circunstâncias

Tentei cultivar a espiritualidade
E acreditar no amor que não sinto
Podia dizer que é tudo verdade
Mas a ti sou sincero e não minto

Descobri que a gente é oca
E que a alma vale pouco ou nada
Diamantes e cirurgias na boca
Faz da pessoa mais uma ou amada

Já descobri as roldanas do mundo
E o que alimenta o seu diário ofício
Tanto é vil que por vezes me inundo
Em litros e litros e litros de vícios

Já percorri milhas e mil coisas fiz
E já aprendi que outras mil não as sei
Mas o que a minha consciência diz
É que me sinto onde comecei

Sinto que não sei nada meu caro
Mas na minha mente persistes
Lembrar-me de ti é um amparo
Mas subitamente reparo
Que já não sei se existes

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ela

Ela assombra-me quando já a esqueci
Volta para me lembrar que existe
Quando já não me lembro que a venci
É quando a derrota de súbito persiste

Ela assombra-me a meio da tarde
Ela assombra-me quando me sinto normal
E quando a dor da vida em mim arde
É quando ela é mais feroz e carnal

Ela assombra-me em dias de vento
Ela assombra-me em dias de azar
Constante, torna-se o maior tormento
Perdura nos anos por mim a passar

Ela assombra-me nos sonhos mais profundos
Ganha vida em mim, onde pensei não a ter
Ela assombra-me em todos os meus mundos
Que crio para tentar deixar de a ver

Ela assombra-me e faz-me sentir inerte
Faz-me arrepender o que outrora não fez
Faz-me sentir que lágrimas verte
Ela assombra-me sempre mais uma vez

Ela assombra-me até neste verso, sim
E sinto em mim o meu eu duvidar
Se fui eu quem criou esta Ela em mim
Se vai viver comigo para lá do meu fim
E me vai assombrar quando a vida acabar